Uruguai abre novas frentes de negócios para empresas brasileiras
Capital brasileiro é perto de 10% do estoque de investimento estrangeiro direto no Uruguai, que oferece facilidades do Mercosul e localização

Resumo da notícia
O Mercosul, a proximidade geográfica e os vínculos empresariais ampliam as oportunidades de negócios entre Brasil e Uruguai, incluindo investimentos e importação de produtos e serviços.A criação de vantagens exclusivas, aliadas a facilidades proporcionadas pelo Mercosul, à proximidade geográfica e ao crescente vínculo empresarial, ensejam grandes oportunidades para empreender no Uruguai e trazer para o Brasil produtos e serviços do país vizinho.
Nesta entrevista exclusiva, Mariana Ferreira, diretora executiva do Uruguay XXI – órgão do governo semelhante à ApexBrasil – traz detalhes dessa série de vantagens que atraem cada vez mais parcerias bilaterais.
Quais setores mostram hoje a maior complementaridade entre os dois países?
A complementaridade se reflete nas cadeias agroindustriais e manufatureiras. O Brasil recebe uma cesta uruguaia com participação significativa de bens industriais e agroindustriais. Entre janeiro e agosto de 2026, o Uruguai exportou US$ 1,362 bilhão ao Brasil, e os principais itens não foram commodities agrícolas, mas bens industriais e de valor agregado: veículos (20%), produtos lácteos (13%), plásticos e suas manufaturas (12%), malte (7%), margarina e óleos (7%), concentrados de bebidas (6%) e arroz (5%).
Isso desmente a ideia de que somos duas economias que fazem a mesma coisa. O Uruguai atua para a indústria brasileira como fornecedor especializado e como elo de cadeias produtivas: malte para a indústria cervejeira, insumos plásticos, concentrados, lácteos, autopeças.
Há outro dado que costuma surpreender: a demanda não está concentrada em um único polo. Santa Catarina (21%), Rio Grande do Sul (19%), São Paulo (14%), Minas Gerais (12%) e Espírito Santo (10%) respondem pela maior parte das nossas vendas. É um mapa de vínculos produtivos regionais, não uma relação com uma única cidade ou estado.
Somam-se a isso os setores em que a complementaridade é de plataforma, mais do que de produto: serviços globais e tecnologia, logística e zonas francas, serviços financeiros e energia. Nesses setores, o Uruguai não compete com o Brasil: oferece uma base a partir da qual operar em direção a terceiros mercados.
De que maneira o Mercosul tem facilitado ou dificultado novas alianças comerciais entre empresas brasileiras e uruguaias?
O Mercosul tem facilitado o intercâmbio entre o Uruguai e o Brasil por meio de preferências tarifárias que permitem a entrada, sem tarifas, da maioria dos bens que cumprem as regras de origem do bloco. Esse marco, somado à proximidade geográfica e aos vínculos empresariais, tem favorecido as relações de abastecimento e a integração produtiva. Isso explica por que o Brasil é hoje o principal parceiro comercial do Uruguai na região.
Em 2025, o Brasil concentrou mais de 14% das nossas exportações de bens, com cerca de US$ 2 bilhões. Soma-se a isso uma arquitetura bilateral que foi ampliando a margem de negócios: o Acordo de Complementação Econômica 2 (ACE 2), o acordo sobre bens elaborados em zonas francas e o Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos, que oferece previsibilidade e canais de diálogo a quem investe.
Ao mesmo tempo, há espaço para seguir aprofundando a integração para além das preferências tarifárias. Uma maior convergência regulatória, a simplificação dos requisitos técnicos e sanitários e a agilização dos procedimentos fronteiriços e aduaneiros contribuiriam para reduzir os custos das operações.
Esses avanços seriam especialmente relevantes para as pequenas e médias empresas, que precisam de processos claros e acessíveis para começar a operar no mercado regional. Também há oportunidades para continuar desenvolvendo a agenda de serviços, compras públicas e comércio digital.
Paralelamente, o Mercosul atravessa uma etapa de maior abertura internacional. O acordo Mercosul-União Europeia entrou em vigor em 1º de maio de 2026, e o acordo com a EFTA foi assinado em setembro de 2025. Esse novo cenário amplia as possibilidades para as empresas brasileiras que escolhem o Uruguai como plataforma para desenvolver suas operações regionais e acessar novos mercados em condições preferenciais.
Oportunidades em tecnologia e serviços: como as startups e empresas brasileiras podem se beneficiar do ecossistema uruguaio?
O Uruguai oferece às startups e empresas brasileiras uma plataforma confiável a partir da qual desenvolver tecnologia, prestar serviços e acessar mercados regionais e internacionais. Os serviços representam cerca de um terço das exportações do país: em 2025, alcançaram US$ 7,386 bilhões, o equivalente a 31% do total, com os serviços globais e as tecnologias da informação como motores do crescimento. Além disso, o Uruguai é o segundo maior exportador de software per capita da América Latina.
Essa proposta se apoia em quatro atributos principais. Em primeiro lugar, um ambiente favorável aos negócios, com livre movimentação de capitais, regimes de zonas francas e benefícios para o software e os serviços associados, sujeitos à análise fiscal e regulatória de cada modelo. Em segundo lugar, talento qualificado e capacidades especializadas. Somam-se a isso a previsibilidade institucional, a segurança jurídica e uma localização estratégica que permite atender, a partir do Uruguai, tanto a América Latina quanto a Europa e os Estados Unidos, com um fuso horário compatível.
Para uma startup, o Uruguai oferece ainda um ambiente pequeno, digitalizado e de fácil gestão, no qual é possível testar e adaptar soluções antes de escalá-las para o Brasil ou outros destinos. As empresas também podem se associar a firmas uruguaias, contratar capacidades especializadas ou instalar funções de desenvolvimento, suporte e serviços compartilhados. Ao fazer isso, integram-se a um ecossistema composto por empresas locais e internacionais, universidades, centros de pesquisa, incubadoras, investidores e mecanismos de financiamento.
Hoje, mais de 100 empresas brasileiras operam no Uruguai. Um exemplo da crescente articulação entre os dois ecossistemas é a aliança formalizada em 2026 entre o Uruguay XXI e o Cubo Itaú para impulsionar a inovação, apoiar a internacionalização de empresas e promover a atração de investimentos, principalmente do Brasil. O Cubo Itaú Uruguai conecta startups a corporações, investidores e novas oportunidades de negócio.
O Uruguay XXI acompanha esse processo sem custo, oferecendo informações de mercado, orientação sobre os regimes de incentivo, contato com atores do ecossistema e facilitação junto aos órgãos públicos. Também dispõe de uma Carteira de Projetos de Investimento, com oportunidades em tecnologia e biotecnologia, entre outros setores. Por sua vez, a Janela Única de Investimentos centraliza as informações necessárias para se instalar no país e está incorporando trâmites digitais de forma gradual, com conteúdos disponíveis também em português.
Sendo ambos potências agrícolas, onde estão as maiores oportunidades de cooperação em vez de concorrência direta?
Uruguai e Brasil compartilham uma forte vocação agroexportadora e, naturalmente, coincidem em alguns mercados. No entanto, seus perfis produtivos são complementares. O Brasil tem uma escala que o posiciona como um grande fornecedor global, enquanto o Uruguai se diferencia por sua especialização, pela rastreabilidade individual de todo o seu rebanho bovino e por uma reputação de qualidade e sanidade construída ao longo de décadas. Essa combinação abre oportunidades para cooperar, inovar e fortalecer a competitividade de toda a região.
Identifico duas áreas com especial potencial. A primeira é a pesquisa e a tecnologia aplicada ao agro. Em dezembro de 2025, o Inia (Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária do Uruguai) e a Embrapa acordaram criar uma Unidade Mista de Pesquisa e Inovação, voltada a áreas como pecuária sustentável, bioinsumos, agricultura digital e inteligência artificial, desenvolvimento de variedades adaptadas às mudanças climáticas e sistemas de rastreabilidade. É uma aliança que permite compartilhar capacidades e avançar conjuntamente na fronteira do conhecimento.
A segunda está em uma maior integração das cadeias produtivas. Produtos como o malte, os lácteos, o arroz, as sementes e a genética, assim como as máquinas, fazem parte de intercâmbios que vinculam as empresas dos dois países. Aprofundar essa integração pode gerar mais inovação, eficiência e valor agregado dentro da região.
Como a transição energética e a matriz renovável abrem portas para negócios em energia limpa ou créditos de carbono?
O Uruguai gera cerca de 99% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis e conta com uma cobertura praticamente universal. Isso não representa apenas uma conquista ambiental, mas também uma vantagem competitiva. As empresas que produzem no Uruguai podem desenvolver suas operações utilizando uma matriz elétrica praticamente renovável, o que contribui para reduzir de forma verificável a pegada de carbono associada à sua atividade.
Em matéria de créditos de carbono, estamos diante de uma agenda com importante potencial de desenvolvimento. O Brasil avança na implementação do seu Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, criado pela Lei 15.042/2024, cujo comitê de governança foi instalado em março de 2026. Um mercado regulado dessa escala pode gerar demanda por créditos de alta integridade, e o Uruguai conta com capacidades vinculadas ao florestamento, ao manejo de pastagens, à produção pecuária e à rastreabilidade.
Isso abre possibilidades para desenvolver projetos conjuntos, compartilhar capacidades técnicas e avançar rumo a metodologias compatíveis. É uma agenda ainda incipiente, que exigirá regras claras e mecanismos confiáveis de medição, verificação e reconhecimento, mas na qual os dois países têm condições de construir uma cooperação de longo prazo.
Existem projetos prioritários em andamento?
Sim. A agenda bilateral está especialmente ativa e reúne projetos ligados à infraestrutura, à energia e ao desenvolvimento produtivo.
Um dos principais projetos de integração fronteiriça é a nova ponte binacional sobre o rio Jaguarão, entre Rio Branco e Jaguarão. A iniciativa prevê a construção de uma ponte de 419 metros e seus respectivos acessos; o Brasil já licitou e contratou a obra principal, enquanto o Uruguai tem o projeto de seus acessos pronto para licitação. Somam-se a isso a restauração prevista da Ponte Internacional Barão de Mauá e sua conexão com a Rota 26.
Também há avanços na hidrovia da Lagoa Mirim. Em junho de 2026, o Brasil emitiu a ordem de serviço para a dragagem de manutenção, com investimento de R$ 51,27 milhões e prazo de execução de 23 meses. O objetivo é melhorar as condições de navegação e contribuir para reduzir os custos logísticos nessa bacia compartilhada.
Em energia, a interconexão elétrica entre os dois países já está em operação, e sua capacidade de intercâmbio aumentou para 500 MW. Isso gera melhores condições para a compra e venda de energia, o apoio mútuo e o desenvolvimento de novos serviços de rede, aproveitando a complementaridade das matrizes energéticas conforme a estação do ano e o regime hídrico.
No Uruguay XXI, acompanhamos essa agenda com uma presença constante no Brasil. Em maio de 2026, apresentamos em São Paulo a proposta de valor do país, junto com o Ministério da Economia e Finanças e o Consulado-Geral. Em agosto, realizamos a Semana do Uruguai no Rio de Janeiro, uma iniciativa multissetorial desenvolvida com o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério da Educação e Cultura, o Ministério do Turismo, o Inavi e a Agência do Cinema e do Audiovisual do Uruguai.
Sua principal instância empresarial foi o Dia do Uruguai no Brasil, realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que reuniu mais de 150 empresários, investidores e autoridades dos dois países em torno de setores como agroindústria, finanças, tecnologia, comércio, turismo e serviços. Também mantemos nossa participação na Expointer, no Rio Grande do Sul.
Essa presença se apoia em uma imagem-país muito favorável. Um estudo da Bloom Consulting, realizado em março de 2026 com 250 pessoas de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, entre brasileiros que viajaram ao exterior nos últimos dois anos, investidores e pessoas ligadas aos negócios internacionais, colocou o Uruguai em primeiro lugar entre cinco países avaliados, à frente de Alemanha, Estados Unidos, Chile e Argentina.
Entre os entrevistados, 90% considerariam comprar produtos uruguaios, com o vinho como o mais mencionado; 87% estariam dispostos a nos visitar; e 67% avaliariam investir no Uruguai. Além disso, 57% percebem que a imagem do país melhorou recentemente.
Como o Brasil se posiciona como parceiro do Uruguai?
Gostaria de encerrar com duas ideias. A primeira é que o Brasil já não representa apenas um mercado para o Uruguai: é também um parceiro de investimento cada vez mais relevante. O capital brasileiro no nosso país passou de aproximadamente US$ 2,5 bilhões em 2019 para cerca de US$ 4,4 bilhões, perto de 10% do estoque de investimento estrangeiro direto.
Hoje, mais de 100 empresas brasileiras operam no Uruguai, associadas a mais de 16 mil postos de trabalho, com presença em agroindústria, indústria frigorífica, serviços financeiros, hotelaria e turismo, tecnologia, logística e comércio.
A segunda ideia é que as empresas brasileiras não escolhem o Uruguai por um único atrativo, mas pelo conjunto de condições que o país oferece: estabilidade institucional, segurança jurídica, regras que se mantêm entre governos, uma matriz elétrica praticamente renovável, livre movimentação de capitais e uma plataforma logística e de zonas francas a partir da qual é possível operar para a região e outros mercados.
Soma-se a isso a Janela Única de Investimentos, que reúne em um só espaço as informações necessárias para se instalar e desenvolver operações no Uruguai. A plataforma oferece guias específicos para setores como agronegócio, alimentos, farmacêutico, florestal, financeiro e hidrogênio verde, e está incorporando trâmites digitais de forma gradual.
No Uruguay XXI, acompanhamos as empresas durante todo esse processo, sem custo, com informações de mercado, identificação de sócios e contrapartes, orientação sobre os instrumentos disponíveis e facilitação junto ao setor público. Para as empresas brasileiras que desejam explorar novas oportunidades, o Uruguai está de portas abertas.